Mateo ficou olhando para a carta como se o tempo tivesse parado de se mover.
Ele reconhecia cada uma das linhas curvas.
Cada letra.
Clara havia escrito para ele inúmeras listas de compras, cartões de aniversário e pequenas cartas de amor.
Ninguém poderia falsificar aquela caligrafia.
„De onde você tirou isso?“, perguntou ele com a voz rouca.
Rosa não respondeu imediatamente.
Primeiro olhou para os dois meninos.
„Por favor, subam por um momento. Já vou até vocês.“
Leo balançou a cabeça.
„Não sem você.“
Só então Mateo percebeu o quanto seus filhos haviam se apegado àquela mulher nos poucos meses.
„Por favor“, disse Rosa em voz baixa.
„Confiem em mim.“
Os gêmeos assentiram relutantemente e desapareceram lentamente escada acima.
Quando seus passos desapareceram, Rosa colocou o segundo objeto de sua bolsa sobre a mesa.
Uma pequena caixa de música de prata.
Mateo ficou pálido de repente.
„Ela pertencia a Clara.“
„Sim.“
„Ela nunca foi encontrada depois do acidente.“
Rosa assentiu.
„Porque ela nunca esteve no local do acidente.“
Mateo sentiu seu estômago se contrair.
„Agora fale de uma vez.“
Rosa respirou fundo.
„Há quase três anos eu trabalhava como cuidadora em uma clínica particular de reabilitação fora da cidade.“
Mateo franziu a testa.
„Certa noite, um motorista trouxe uma mulher gravemente ferida. Sem nome. Sem documento.“
Ele queria dizer algo.
Mas Rosa levantou a mão.
„Quando ela voltou a si, mal conseguia se lembrar de quem era.“
Mateo balançou a cabeça incrédulo.
„Não…“
„Semanas depois, fragmentos da memória dela voltaram.“
Rosa abriu a carta com cuidado.
„Ela se lembrou de dois meninos pequenos.“
Mateo ficou sem ar.
„De música.“
„E do seu nome.“
Lágrimas escorreram pelo rosto de Rosa.
„Mas antes que pudéssemos encontrar você, o estado dela piorou de repente.“
Mateo sentiu seus joelhos ficarem fracos.
„Ela sabia que não lhe restava muito tempo.“
Rosa entregou a carta a ele.
„Então ela escreveu várias cartas.“
Mateo começou a ler.
Meu amado Mateo.
Se você está lendo esta carta, significa que nossos meninos finalmente voltaram a rir.
Por favor, não fique bravo com a mulher que está entregando esta carta a você.
Eu pedi a Rosa que só encontrasse vocês quando Leo e Santi pudessem voltar a ser crianças.
Prometa-me que nossa casa não se tornará um museu da minha tristeza.
Deixe a música voltar.
Pois enquanto nossos meninos rirem, eu nunca terei desaparecido completamente.
Mateo mal conseguia reconhecer as últimas linhas.
Suas lágrimas caíram sobre o papel.
„Por quê… por que você nunca entrou em contato antes?“
Rosa abriu sua carteira.
Dentro havia uma foto de jornal amassada.
Mateo viu a si mesmo.
Há dois anos.
Na primeira página.
„Empresário se afasta completamente da vida pública após a morte da esposa.“
„Eu tentei entrar em contato com você“, disse Rosa.
„Seus assistentes me mandaram embora.“
„Seus seguranças também.“
„Ninguém acreditou que uma simples empregada doméstica tivesse algo importante a dizer.“
Mateo fechou os olhos.
Ele se lembrou.
Durante semanas havia evitado todo contato com o mundo exterior.
Havia se escondido atrás de paredes, compromissos e trabalho.
Não apenas do mundo.
Mas da própria dor.
„Por isso me candidatei como empregada doméstica“, sussurrou Rosa.
„Eu só queria cumprir o último desejo da sua esposa.“
Mateo sentou-se pesadamente no sofá.
Pela primeira vez desde a morte de Clara, ele viu sua casa de verdade.
Não como uma vila luxuosa.
Mas como uma prisão silenciosa.
Sem risadas de crianças.
Sem música.
Sem vida.
Apenas lembranças.
Naquele momento, ele ouviu uma risadinha vinda de cima.
Depois duas vozes.
„Rosa! Você vem?“
Ela queria responder.
Mas Mateo segurou suavemente seu braço.
„Não.“
Ela olhou para ele assustada.
„Você não vai a lugar nenhum.“
„Mas eu…“
„Minha esposa lhe deu a missão mais importante da vida dela.“
Ele olhou para a escada.
„E eu quase cometi o maior erro da minha vida.“
Lentamente, eles subiram juntos.
Quando Leo e Santi viram o pai, prenderam a respiração.
Mateo se ajoelhou diante deles.
„Me desculpem.“
Os meninos olharam um para o outro, inseguros.
„Eu achei que poderia proteger vocês mantendo tudo em silêncio.“
Ele sorriu em meio às lágrimas.
„Mas eu tirei de vocês exatamente aquilo que a mãe de vocês queria deixar.“
„Música?“, perguntou Santi cautelosamente.
Mateo assentiu.
„Música.“
Leo levantou lentamente o pequeno violão vermelho de brinquedo.
„Rosa pode ficar?“
Mateo não respondeu imediatamente.
Ele foi até o velho piano, que estava fechado havia dois anos.
Lentamente, levantou a tampa.
A poeira rodopiou pela luz do sol.
Então ele se sentou.
Inseguro.
Enferrujado.
Com os dedos trêmulos, tocou a primeira melodia que Clara cantava para os meninos todas as noites.
Leo começou a sorrir.
Santi cantarolou baixinho junto.
E Rosa fechou os olhos em silêncio.
Pela primeira vez em muitos anos, a casa não estava mais preenchida pela tristeza.
Mas por algo que era mais forte do que qualquer perda.
O amor não desaparece quando uma pessoa vai embora.
Às vezes ele espera pacientemente em uma carta antiga, em uma melodia esquecida ou na coragem de uma pessoa que decide cumprir uma promessa feita a alguém desconhecido.
