Quando Chloe, a filha de cinco anos de Emily, começou a conversar com o espelho do quarto, Emily achou graça. As crianças têm amigos imaginários o tempo todo. Chloe até tinha um nome para o dela: “A Senhora no Espelho”.
No início, era inofensivo. Chloe acenava para o vidro, ria e sussurrava segredos. Mas logo Emily percebeu detalhes estranhos.
Chloe dizia que os vestidos da senhora eram «antiquados». Ela dizia que a senhora sabia canções que Emily nunca lhe tinha ensinado. Uma noite, Emily ouviu Chloe cantar uma canção de embalar — não uma canção de desenhos animados ou da pré-escola, mas uma melodia assombrosa que Emily reconheceu vagamente da sua própria infância.
A sua avó costumava cantá-la.
Isso fez-lhe parar para pensar.
Uma tarde, Emily perguntou cuidadosamente: «Chloe, como é a senhora?»
Chloe pensou por um momento. «Ela é bonita. Tem cabelo encaracolado, como o seu, mas grisalho. E usa um medalhão.»
O coração de Emily deu um salto. A sua avó — bisavó de Chloe — usava o cabelo encaracolado. E sempre usou um medalhão de prata.
Abalada, Emily foi ao sótão e vasculhou caixas antigas até encontrar um álbum. Ela folheou até chegar a uma fotografia da sua avó aos vinte e poucos anos.
Quando Chloe entrou, Emily mostrou a foto casualmente. «Sabe quem é esta?»
Os olhos de Chloe brilharam. «É ela! É a senhora do espelho!»
Emily prendeu a respiração.
A sua avó tinha falecido anos antes de Chloe nascer. Chloe nunca tinha visto fotos dela.
Naquela noite, Emily ficou no quarto de Chloe muito tempo depois de a filha adormecer. O espelho refletia o seu rosto ansioso. Por um momento, ela pensou ter visto um lampejo — não o seu próprio reflexo, mas o contorno tênue de uma mulher parada logo atrás do seu ombro.
Ela sussurrou baixinho, com a voz trémula: «Mãe? És tu?»
O espelho permaneceu imóvel.
Mas quando ela se inclinou para dar um beijo de boa noite a Chloe, o medalhão de prata que a avó lhe deixara ficou subitamente quente contra a sua pele.
Emily não sentiu mais medo.

