Eu sempre soube que na vida nada vem facilmente. Se eu queria alcançar algo, tinha que trabalhar por isso. Não havia atalhos, não havia sorte. Talvez por isso eu tenha estudado e trabalhado mais duro do que qualquer pessoa que eu conhecia.
Desde a infância eu queria ser médica. Eu queria salvar vidas – talvez também porque ninguém conseguiu salvar a minha mãe. Quando eu tinha doze anos, ela morreu, e a partir daquele momento só pude contar comigo mesma.
Estudei dia e noite. Vivi de café e pouco sono, mas não desisti. Quando me candidatei a uma das melhores universidades de medicina do país com bolsa de estudos e fui rejeitada, achei que tudo tinha acabado.
Dois dias depois, porém, me ligaram: uma vaga tinha sido liberada. Foi a primeira – e por muito tempo a única – vez em que senti que a sorte estava do meu lado. Prometi que não a desperdiçaria.
Mas a sorte não pagava as contas. Eu não tinha família que pudesse me ajudar, então procurei trabalho. Quando vi um anúncio para uma vaga de faxineira residente com horário flexível, me candidatei imediatamente.
No primeiro dia, quando cheguei, literalmente congelei. Aquilo não era uma casa. Era uma mansão. Colunas altas, janelas enormes, e aquela sensação de que as paredes estavam observando.
A entrevista foi conduzida por uma mulher mais velha, chamada Margaret. Ela estava sentada atrás de uma mesa maciça, com os cabelos grisalhos presos com precisão, sua voz era calma, mas firme.
– Já trabalhou como faxineira, Clara? – perguntou. – Apenas meio período – respondi honestamente. – Limpei escritórios e apartamentos enquanto estudava.
– Esperamos disciplina. Eu moro aqui com meu filho, a esposa dele e meu neto. Ordem e discrição são requisitos básicos. Entende?
– Sim, senhora.
Ela se levantou, seus movimentos eram elegantes.
– Linda será sua supervisora. Ela lhe mostrará tudo.
Linda era gentil e prestativa. Ela me guiou pelos corredores intermináveis, depois me mostrou meu quarto. Disse que era pequeno – mas era duas vezes maior do que meu antigo apartamento.
Assim começou minha nova vida. De madrugada eu passava roupa, corria para a universidade, depois limpava até a noite. Era cansativo, mas eu não reclamava. Eu já estava acostumada a algo pior.
No início eu não encontrei o filho de Margaret. Ele estava em viagem de negócios. Sua esposa, Elaine, e o filho adolescente deles eram educados, mas distantes. Eram pessoas que realmente não viam aqueles que trabalhavam abaixo deles.
Uma manhã, quando eu estava enchendo um copo de água na cozinha, uma voz masculina falou atrás de mim.
– Kate?
Virei-me. Um homem na casa dos quarenta estava ali, me encarando chocado.
– Desculpe – disse rapidamente. – Meu nome é Clara.
– Clara… sim. Só me lembra alguém.
– O nome da minha mãe era Kate – escapou da minha boca. – O senhor a conhecia?
– Não. Acho que não – disse, depois foi embora.
Esse foi meu primeiro encontro com Thomas. Havia algo frio, distante nele. Reforçou em mim o que eu sempre pensei: há pessoas que é melhor admirar de longe.Um dia Elaine me disse para limpar o escritório de Thomas. Eu sabia que só se podia entrar ali mediante pedido especial.
O cômodo estava intacto. Organizado demais. Quando eu estava tirando o pó da estante, algo caiu no chão de trás de um livro grosso.
Era uma fotografia.
Quando a peguei, fiquei paralisada.
Era minha mãe nela. Ela sorria, me segurando nos braços quando eu era bebê. Exatamente a mesma foto que eu tinha em casa, escondida no meu diário.
A porta se abriu atrás de mim. Margaret estava ali.
– O que tem na mão? – perguntou de forma ríspida.
Eu disse que tinha caído dentre os livros. Entreguei a foto a ela. Um olhar foi suficiente: seu rosto se tensionou, depois voltou a ficar impassível. – Isso não lhe diz respeito – disse. – Termine a limpeza, depois vá ao meu quarto.
Naquela noite eu não consegui dormir. Através da parede ouvi a voz nervosa de Margaret.
– A mãe dela já causou problemas suficientes uma vez. Não vou deixar que a filha dela destrua tudo também.
No dia seguinte Thomas acidentalmente me chamou de Kate novamente. Desta vez eu não deixei passar. Falei sobre a foto.
– Eu não queria acreditar… até agora – disse em voz baixa.
Margaret então entrou.
– Chega! – exclamou. – Clara, arrume suas coisas. Estou demitindo você imediatamente.
Thomas, porém, a interrompeu. – Não. Agora já chega. Ela tem o direito de saber.
– O que você está arriscando? – sibilou Margaret.
– Que finalmente eu possa ser o pai da minha filha? – gritou.
Fiquei tonta.
– Sua… filha?
Thomas confessou a verdade. Minha mãe trabalhava aqui. Eles se amavam. Quando ela engravidou, Margaret a expulsou. Thomas foi covarde. Ele a deixou ir.
– Eu paguei seus estudos – disse calmamente. – E agora eu finalmente gostaria de ser seu pai.
Quando ele me abraçou, tudo o que eu havia carregado até então se rompeu dentro de mim. E pela primeira vez senti que talvez eu não estivesse sozinha.
