Após o incêndio, ele havia perdido toda noção do tempo. A casa, que o homem havia construído com suas próprias mãos, havia queimado em apenas uma noite. Dentro estavam sua esposa e sua filha de sete anos. Ele só sobreviveu porque naquela noite havia saído para passear com o cachorro.
Quando voltou, viu o fogo de longe e correu, sem sentir as pernas – mas não pôde salvar ninguém. Após o funeral, vendeu tudo que ainda lhe restava e decidiu deixar sua cidade natal, pois cada cruzamento, cada banco, lembrava-o do que havia perdido.
O anúncio da venda de uma casa antiga em uma vila isolada ele encontrou por acaso. O preço era incomumente baixo, quase suspeito. A casa ficava afastada, longe dos vizinhos.
O proprietário lhe causou uma impressão desagradável – falava apressado, evitava contato visual e repetia constantemente que precisava urgentemente de dinheiro e que a casa era “simplesmente velha, mas sólida”.
Qualquer pessoa sensata teria hesitado, mas ele não buscava conforto nem beleza. Ele só precisava de um lugar onde pudesse se esconder de suas memórias. Pagou em dinheiro e nem negociou.
Quando chegou com seu cachorro, já começava a cair neve molhada. A casa parecia pior do que nas fotos: um telhado torto, troncos de madeira descascados, janelas trincadas.
Mas o cachorro se comportou de maneira diferente. Normalmente corajoso e teimoso, nunca teve medo da escuridão ou de tempestades – mas desta vez ficou como enraizado na varanda. Esticou o pescoço, cheirou e de repente recuou. As orelhas estavam baixas, a cauda pendia.
O cachorro choramingou baixinho e olhou para o dono como se quisesse avisá-lo. O homem puxou a coleira, mas o cachorro resistiu com todas as quatro patas e rosnou na direção do corredor escuro atrás da porta entreaberta. Ele não entrou na casa, e tentou até fugir de volta para o carro, tremendo e olhando ao redor constantemente, como se ouvisse algo que o ser humano não podia perceber.
Durante a noite, o cachorro não latiu nem uivou – apenas choramingou baixinho e andou ao redor da casa, parando às vezes junto à parede do lado da cozinha.
De manhã, o homem foi ao quintal e percebeu que o cachorro estava novamente exatamente naquele ponto, raspando a neve com a pata.
A princípio, ele não deu muita atenção, mas então lembrou-se de como o cachorro havia se comportado na noite anterior e decidiu verificar o chão da cozinha – exatamente sobre aquele ponto.
Quando viu o que estava escondido debaixo do piso, compreendeu com horror por que o cachorro havia se comportado de maneira tão estranha Continuação da história no primeiro comentário
As tábuas eram antigas, mas sob uma delas ele percebeu pregos frescos. Isso parecia estranho, pois o resto da casa já estava apodrecido e coberto de mofo.
Ele pegou um pé de cabra e levantou cuidadosamente a tábua. Debaixo dela havia uma escotilha, que evidentemente havia sido fechada recentemente. Ao abri-la, um cheiro forte de umidade lhe atingiu – e mais algo, algo familiar e ao mesmo tempo horrível.
Debaixo havia uma pequena adega, e em um canto os ossos estavam cuidadosamente empilhados. Não eram ossos de animal. Ele percebeu isso imediatamente.
Lembrou-se do vendedor estranho, de sua pressa e nervosismo. Do fato de que ele nunca havia oferecido mostrar a adega. E o pior era que entre os ossos havia os restos de uma pulseira infantil – com contas rosas desbotadas.
O cachorro não tinha medo de fantasmas e não sentiu nada sobrenatural. Ele percebeu o cheiro de morte e fogo – o mesmo que uma vez havia tirado a família de seu dono.
E a casa, que deveria ser um refúgio, revelou-se um lugar onde alguém havia tentado esconder a verdade sob algumas tábuas.
