Quando os pais de Daniel decidiram vender a sua antiga casa, ele voltou uma última vez para ajudar a limpar o sótão. Caixas de brinquedos, livros empoeirados e fotografias amareladas enchiam o espaço.
No fundo de um baú, ele encontrou algo que não via há décadas: o seu diário de infância.
Era um pequeno caderno encadernado em couro com o seu nome escrito na capa interna em letras tortas e infantis. Sorridente, ele sentou-se no chão do sótão e abriu o caderno.
As primeiras páginas eram exatamente como ele se lembrava — uma caligrafia desorganizada sobre paixões escolares, aventuras no recreio e segredos bobos.
Mas, à medida que folheava, o seu sorriso desapareceu.
A caligrafia mudou.
Ainda estava no seu diário, mas as letras estavam mais organizadas, mais nítidas — e não eram as suas.
As anotações descreviam coisas das quais Daniel não se lembrava, escritas como se outra pessoa tivesse vivido a sua vida. «Ele esconde a chave debaixo da terceira tábua do soalho.» «Ele chora à noite, mas não sabe que eu o ouço.»
Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Ele nunca tinha escrito essas palavras.
As últimas páginas eram as piores. Estavam escritas com a mesma caligrafia estranha, mas agora dirigiam-se diretamente a ele:
«Daniel, estive à espera que voltasses. Não devias ter aberto isto novamente.»
Sentiu a garganta apertar. Fechou o diário com força, com o pulso a bater forte.
Correu escada abaixo e exigiu que a mãe lhe desse uma explicação. Ela empalideceu ao olhar para o diário. Após um longo silêncio, sussurrou: «Quando eras pequeno, costumavas falar com alguém que nós não conseguíamos ver. Pensávamos que era um amigo imaginário. Uma vez, até lhe deste o teu diário. Nunca te contámos porque deixaste de falar nele.»
Daniel sentiu o peito apertar. O sótão parecia mais frio agora.
Naquela noite, ele deixou o diário para trás na casa antiga, trancado no baú onde ficara guardado durante anos.
Mas, às vezes, ele jurava que ainda ouvia as páginas a virar quando a casa ficava silenciosa.

