Quando minha avó morreu, meus parentes apareceram imediatamente na casa dela, todos com o mesmo objetivo: encontrar o testamento. Eu fui a única que não ficou ali por causa do dinheiro, mas porque não tive coração para deixar sozinha a velha cadela dela. Naquele momento eu ainda não sabia que a vovó não tinha deixado apenas lembranças para trás… mas também um segredo, cuidadosamente escondido onde ninguém teria procurado.
Para que a nossa família se reunisse em um só lugar, geralmente eram necessárias duas coisas: ou muito dinheiro, ou uma morte. Naquele dia, infelizmente, tivemos as duas.
Eu estava no cemitério, observando enquanto a vovó era lentamente baixada à terra. Na minha mão eu segurava firmemente a guia de Berta. A cadela puxava para frente, como se quisesse ir atrás dela. Como se não entendesse por que ela não voltaria mais.
Berta era da minha avó. Ela a acolheu ainda quando eu era criança, e costumava dizer que Berta era sua melhor amiga – e quase o único ser vivo em quem confiava plenamente.A minha avó era uma boa pessoa. Excêntrica, sim, mas boa. Trabalhou duro a vida inteira, ganhou muito dinheiro, mas nunca deu um centavo sequer aos filhos ou netos. Em vez disso, pagou os estudos de todos. Estava convencida de que a pessoa precisava se erguer sozinha, assim como ela própria havia feito um dia.
Talvez exatamente por isso a maior parte da família ficou anos sem falar com ela. Minha mãe, meu tio, minha tia, meus primos – ninguém ligava, ninguém visitava. Até aquele dia.
Olhei ao redor para eles no funeral. Todos os rostos refletiam a mesma coisa: expectativa. Esperança. Ganância. Eu sabia por que estavam ali. Pelo dinheiro. Esperavam que ao menos depois da morte recebessem alguma coisa. Mas quem conhecia minha avó sabia: isso não seria tão simples.
Nos últimos seis meses de vida ela esteve muito doente. Foi então que me mudei para a casa dela para cuidar dela. Eu trabalhava como enfermeira e, ao mesmo tempo, tentava equilibrar o trabalho com as tarefas de casa. Não foi fácil, mas consegui. Eu sabia que ela era grata por não ter ficado sozinha.
Claro que ela também não me mimava. Lembro que uma vez recebi uma conta enorme de conserto do carro e, desesperada, disse a ela que não sabia de onde tiraria o dinheiro para pagar.
– Você é uma garota forte – respondeu calmamente. – Vai dar um jeito.
Eu não esperava outra coisa. Ela também não fazia exceções comigo. Mas sempre me apoiava, me dava conselhos, e isso significava muito.
Depois do funeral todos foram para a casa para ouvir a leitura do testamento. Eu já tinha arrumado minhas coisas antes. Sabia que não poderia ficar ali por muito tempo. Enquanto esperávamos a chegada do advogado, ninguém falou nada. Apenas olhares frios e tensão enchiam o cômodo.
Então minha tia Florence se dirigiu a mim:
– Meredith, diga-me, afinal, que tipo de médica você é?
– Enfermeira – respondi.
– Enfermeira?! – explodiu meu tio Jack. – Disso não dá para ficar rico. Já o Tom tem uma empresa de carros, e a Alice administra vários salões de beleza…
– Eu ajudo pessoas. Para mim isso é suficiente – disse baixinho.
– Não acredito que fui eu que te pari – resmungou minha mãe.
Falávamos três vezes por ano: no meu aniversário, no dela e no Natal. Por telefone.
Nesse momento a campainha tocou. Como ninguém se mexeu, eu abri a porta. Era o advogado da vovó, Sr. Johnson. Conduzi-o até a sala de estar. Ele não se sentou.
– Vou ser breve – disse. – Não há muito o que discutir.
– Como assim não há?! – gritou minha mãe. – E o testamento?
– Cassandra não deixou herança para nenhum de vocês – respondeu de forma objetiva.O ar congelou.
– Isso é impossível! – gritaram. – Então quem fica com o dinheiro e a casa?!
– Isso não posso revelar – disse Johnson. – E agora, por favor, deixem o imóvel.
Ninguém se mexeu.
– Essa velha bruxa! – berrou Jack. – Nem em vida se importou conosco, nem depois da morte dá nada?!
– Isso não é verdade – interrompi. – Ela se importava conosco. Só de outra forma.
– Ah, claro – minha mãe acenou com desprezo.Nesse momento Berta começou a latir alto.
– E o que vamos fazer com essa cadela? – perguntou Florence.
– Vamos sacrificá-la – disse minha mãe friamente.
– Nem pensar! – gritei.
– Então leva você – deu de ombros minha mãe. – Nós não a queremos.
– No meu aluguel não é permitido animal – disse.
– Então está decidido – encerrou Jack.
– Eu a levo – disse por fim.Feito silêncio.
Mais tarde, quando todos foram embora, juntei as coisas de Berta, coloquei no carro e a levei para casa. O proprietário acabou concordando que ela ficasse, mas aumentou o valor do aluguel.
Numa noite, enquanto eu fazia carinho em Berta, algo na coleira dela me chamou a atenção. Tirei-a. No verso havia um endereço gravado e o número “153”. Ao abrir a plaquinha, uma pequena chave caiu.
Ela levava ao guarda-volumes número 153 da estação. Abri.
Dentro havia uma pasta: “Para Meredith”.
A letra da minha avó:
“Deixo todos os meus bens para quem tiver o coração puro o bastante para cuidar de Berta. Eu sabia que seria você, Meredith.”
Minha mão tremia.
E então ouvi a voz da minha mãe atrás de mim…
