Sempre que espirro, um desconhecido se apaixona por mim

Sempre tive alergias fortes. Poeira, pólen, pêlos de gato — tudo. Espirro constantemente. Eu achava que isso era apenas um incómodo.

Até aquele dia em que espirrei no metro.

A mulher à minha frente, que estava a folhear o telemóvel, sem me notar, de repente levantou os olhos. O seu olhar encontrou o meu. E então ela sorriu. Não, não foi apenas um sorriso. Ela brilhou.

Quando saí na minha paragem, ela seguiu-me. «Ei», disse ela, ofegante. «Acho… acho que te amo.»

Eu ri nervosamente e fui embora. Estranho. Assustador. Provavelmente uma coincidência.

Mas no dia seguinte, isso repetiu-se.

Eu espirrei no supermercado. Um homem que estava a três corredores de mim de repente largou o carrinho, correu até mim e agarrou-me pelo braço. «Você é a pessoa mais bonita que eu já vi», sussurrou ele, com os olhos arregalados, em desespero.

No final da semana, eu já não conseguia ignorar isso. Cada espirro era acompanhado por alguém — qualquer pessoa — que se apaixonava perdidamente por mim.

O caixa do posto de gasolina. O carteiro. O guarda de trânsito.

E eles não eram discretos. Eles seguiam-me, escreviam-me bilhetes, deixavam flores à minha porta. Uma mulher cantou durante horas debaixo da minha janela, até que a polícia a levou embora.

A situação rapidamente se tornou perigosa.

Eu espirrei num banco. O caixa saltou o balcão para me pegar pela mão. Noutra ocasião, espirrei num engarrafamento e um homem abandonou o carro em movimento no meio da estrada, apenas para declarar a sua devoção.

Deixei de sair de casa.

Mas não se pode controlar os espirros. Uma noite, espirrei enquanto via televisão. Dez minutos depois, o meu telefone tocou e recebi uma mensagem de um número desconhecido: «Não sei porquê, mas não consigo parar de pensar em ti».

Já não eram apenas as pessoas próximas.

O amor espalhou-se mais longe. Na Internet. Por toda a cidade. Estranhos encontraram-me. As pessoas montaram tendas em frente ao meu apartamento.

Tentei usar uma máscara. Conter os espirros. Mas cada vez que um escapava, era o caos.

Na semana passada, espirrei três vezes seguidas. De manhã, havia mais de 200 cartas de amor coladas na minha porta.

E depois tudo piorou.

Espirrei uma vez — apenas uma vez — e no dia seguinte apareceu uma manchete na Internet: «Senador renuncia repentinamente, alegando que se apaixonou».

Então percebi que não era um acaso. Não era apenas uma coincidência. Os meus espirros não apenas provocavam amor. Eles transformavam a vida das pessoas.

Agora vivo com medo da primavera. Um único espirro pode causar uma revolta. Um único ataque de alergia pode destruir a ordem mundial.

Deixei de abrir as janelas. Deixei de sair à rua. Por precaução, durmo com o nariz tapado com guardanapos.

Porque, se espirrar mais uma vez, não sei quem vou destruir da próxima vez.

E ontem à noite acordei com alguém parado na minha sala.

Olhos vidrados. Sorriso exagerado.

«Estava à espera que espirrasses novamente», sussurrou ela.

Atyew