Keller ordenou a apreensão dos telefones, do computador da família e de todos os documentos que estavam no escritório de Victor.
Atrás de um armário, os policiais encontraram uma pequena maleta de metal.
Dentro dela havia extratos bancários, uma procuração falsificada e um contrato de empréstimo de 460 mil euros feito em nome de Léa.
Três anos antes, seu avô havia deixado para ela um terreno nos arredores de Bordeaux. Seus pais falsificaram sua assinatura para usá-lo como garantia financeira.
Depois, investiram o dinheiro na empresa de Victor, que estava enfrentando sérios problemas.
Quando as parcelas deixaram de ser pagas, as cartas de cobrança começaram a chegar.
Léa não tinha visto nenhuma delas.
Mas sua nomeação como oficial havia provocado uma verificação detalhada de sua situação financeira. Victor sabia que o empréstimo fraudulento seria descoberto em breve.
—Vocês queriam mantê-la dentro desta casa porque ela pertencia a vocês? perguntou Keller.
Mireille balançou a cabeça.
—Nós queríamos proteger a família.
—Vocês quebraram as costas da própria filha para proteger uma dívida.
Victor então tentou colocar a culpa na esposa. Mireille afirmou que o marido havia planejado tudo. Mas a gravação revelava que ela mesma havia indicado onde esconder a arma e quais documentos deveriam desaparecer.
Os dois foram presos.
No hospital, Léa descobriu que sua nomeação oficial já havia sido assinada no dia anterior à cerimônia. A agressão não poderia apagar os anos de trabalho que ela havia dedicado àquela carreira.
Seu comandante foi até o quarto para entregar suas divisas.
Ele as colocou sobre seu uniforme, que havia sido consertado.
—Sua carreira talvez siga um caminho diferente, disse ele. Mas ninguém pode tirar de você aquilo que conquistou por mérito.
Os meses seguintes foram difíceis.
Léa recuperou parte dos movimentos dos braços e do tronco, mas suas pernas permaneceram paralisadas. Depois da reabilitação, ingressou em um setor de análise militar adaptado à sua nova condição.
Ela nunca desfilou como havia imaginado.
Ainda assim, serviu usando o mesmo uniforme e as mesmas divisas.
O empréstimo fraudulento foi anulado depois da perícia das assinaturas. O terreno continuou em seu nome. Mais tarde, ela decidiu vender uma parte da propriedade para financiar um centro de apoio destinado a jovens vítimas de violência familiar.
Durante o julgamento, Victor se recusou a olhar para a filha.
Mireille chorou, repetindo que era sua mãe.
Léa respondeu apenas:
—Uma mãe não ri diante da própria filha destruída.
Ao sair do tribunal, Keller devolveu a ela o relógio rachado, agora guardado dentro de um envelope de provas.
—Você realmente quer ficar com ele?
Léa observou a pequena rachadura que atravessava a tela.
—Sim. Eles pensaram que aquela queda provaria que eu jamais conseguiria partir.
Ela colocou o relógio no bolso e então conduziu sua cadeira de rodas em direção à saída.
—Foi ele que provou que eles nunca mais poderiam me impedir de ir embora.
