Julien correu em direção à porta do carro.
Élodie colocou-se à sua frente.
— Onde você vai?
— Nadia está em perigo.
— Não. É o meu dinheiro que está em perigo.
Ele parou.
Ao meio-dia, Élodie deveria assinar a venda de uma parte da empresa de decoração fundada por seu pai. Julien havia sugerido que ela transferisse temporariamente o dinheiro para uma nova conta, a fim de “simplificar os impostos”.
A conta era administrada por Nadia.
Élodie havia concordado porque confiava nos dois.
Ela voltou a olhar para o vídeo.
Julien e Nadia não tinham apenas decorado o carro. Eles haviam colocado uma câmera voltada para o portão para registrar a reação dela.
O objetivo deles era fazê-la gritar, quebrar alguma coisa ou agredir Julien. Essas imagens seriam usadas posteriormente em um processo de divórcio para apresentá-la como uma mulher violenta e emocionalmente instável.
Enquanto ela tentasse se defender, Nadia faria o dinheiro da venda desaparecer.
— Me dê o telefone — ordenou Julien.
— Por quê? Para apagar o vídeo, assim como você apagou os extratos bancários?
A expressão dele confirmou aquilo que ela acabara de suspeitar.
Élodie entrou em casa e trancou a porta. Ligou para seu advogado e, em seguida, para o banco.
A transação foi suspensa poucos minutos antes de ser autorizada.
O cartão de memória escondido na peça de lingerie vermelha continha cópias de transferências bancárias, mensagens e um pedido de divórcio já preparado. Julien exigia a casa, uma parte da empresa e a guarda principal dos dois filhos.
A remetente anônima era Inès, irmã de Nadia.
Contadora na mesma agência, ela havia descoberto o esquema e percebido que Nadia pretendia fazer toda a equipe assumir a culpa pela fraude. Ela filmara a encenação dos dois e depois escondera as provas na lingerie antes de avisar Élodie.
Mesmo assim, Julien continuou mentindo.
— Eu só queria saber se você confiava em mim.
Élodie olhou para ele através do vidro da porta.
— Não se testa a confiança preparando a queda da própria esposa.
A polícia chegou enquanto vários vizinhos ainda observavam o carro.
Julien tentou apresentar o caso como uma simples brincadeira entre marido e mulher. Mas as gravações mostravam Nadia preparando as falsas ordens de transferência e Julien repetindo diante da câmera a versão que pretendia apresentar ao juiz.
Nadia foi detida nas proximidades do banco.
Durante a investigação, Élodie descobriu que o caso entre os dois já durava quase um ano. Ainda assim, não foi essa traição que mais a feriu.
Foi a precisão do plano.
Julien conhecia suas feridas, suas reações e seu medo de ser humilhada. Ele havia transformado tudo o que sabia sobre ela em uma arma.
Algumas semanas depois, Élodie reencontrou Inès.
— Por que você escondeu o cartão na lingerie vermelha?
— Porque Nadia monitorava meu telefone. Eu sabia que você examinaria o carro antes que ela pudesse voltar.
Élodie agradeceu, mas Inès baixou os olhos.
— Eu deveria ter contado antes.
— Você contou antes que fosse tarde demais.
A venda foi cancelada. As contas permaneceram protegidas e as provas foram encaminhadas às autoridades. Élodie pediu o divórcio sem oferecer a Julien a cena pública que ele havia preparado.
Na manhã em que finalmente limparam o carro, ela encontrou a pequena câmera escondida na cerca viva.
Ela a colocou diante do marido durante o último encontro dos dois.
— Você queria guardar a imagem de uma mulher desmoronando.
Em seguida, empurrou o cartão de memória na direção dele.
— Você só registrou o momento em que eu descobri quem você realmente era.
Julien havia coberto o carro dela de lingerie para criar uma humilhação impossível de esquecer.
Mas naquela manhã, o único segredo exposto diante de todo o bairro foi o dele.
